sabemos viver de acordo com os ciclos?

A última Travessias, a newsletter da Bambual Editora, interpela-nos sobre os ciclos: “Você tem tirado um tempo para perceber os ciclos internos e externos que permeiam sua vida? O que ainda é semente? O que já brotou? O que está na hora de podar? O que floresceu? Você colheu? O que está virando adubo? E assim por diante…”

E continua:
Gosto de pensar na ideia de ciclo como algo em espiral, que nunca se acaba, está em constante renovação. Como o ciclo cicardiano, sempre se renovando a cada novo dia.
Essa ideia também nos tira o peso de pensar que existe algum lugar para se chegar. Quando chegamos, tudo se renova e iniciamos mais uma parte da espiral.

“Se esse é seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?”
Esse verso de Fernando Pessoa, no poema “Quando Vier a Primavera” traz uma espécie de aconchego para os mais ansiosos. 
A primavera, meus caros e caras, sempre há de chegar. Mas sempre no seu tempo. Por isso, é bom lembrar que não tem como amadurecer algo a força. Viver em consonância com os ciclos é aceitar a impermanência das coisas e perceber a potência que existe em cada fase

Quem sabe, se soubermos aprender a  viver em ciclos, não podemos ser pessoas menos ansiosas ou cansadas?

Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

(Poemas Inconjuntos, heterónimo de Fernando Pessoa)

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