excertos de um artigo de Bruna Buch
“Nada jamais continua, tudo vai recomeçar “.
Esse é o verso do poema Canção do Dia de Sempre, do Mário Quintana, que mais gosto.
Sinto como se o poeta expressasse um alívio pela ciclicidade eterna da vida, uma alegria em oferecer aos ventos e às águas dos rios a ilusão da completude para, mais uma vez, colher sonhos e esperanças. Os ciclos nos inspiram porque permeiam o viver. Como agulha e linha atravessando um tecido vivo em movimentos circulares, eles dão coesão a esse nó ao qual chamamos eu. A partir das relações que costuramos, criamos a nossa história e fazemos isso apoiados em ciclos celulares, ritmos circadianos, ciclos biogeoquímicos, rotações e translações.
(…)
O paleontólogo Stephen Jay Gould comparou a periodicidade observada pela ciência com a narrativa de Shiva Nataraja. Para os habitantes do Sul da Ásia, Nataraja está associado a conceitos filosóficos sobre ciclos cósmicos eternos de destruição e criação.
O compasso de sua dança e o ritmo do universo é marcado pelo som do tambor, e quando ele pára de tocar para mudar o ritmo, todo o universo se desfaz, ressurgindo quando a música recomeça.
Todo o fim é um começo, uma renovação da energia e da vontade. Honrar as perdas é tão transformador quanto celebrar os ganhos.
Estamos encerrando mais um ano, o tambor de Shiva vai parar e, quem sabe, poderemos reconhecer em nós o espaço resiliente e criativo sempre aberto para fins e recomeços, abandonar visões de mundo ultrapassadas e abrir espaço para uma nova irradiação adaptativa de ideias e modos de viver. Sem nenhuma lembrança das outras vezes perdidas, vamos apanhar a rosa dos sonhos com estas mãos distraídas.
Mais um ano se encerra. Este é um bom momento para fazer uma pausa, organizar um altar com imagens e objetos que simbolizem o que foi perdido e pensar em hábitos que você gostaria de abandonar. Agradeça e celebre também o que foi alcançado. Escreva cartas, preces, poemas, ouça boa música, deixe o seu corpo e a sua mente descansar. Quando estiver pronto(a), ao invés de desenhar um plano com objetivos para o próximo ano, escreva uma intenção sincera e comum:
Que eu possa aceitar que a mudança é inevitável e que eu possa ver nos olhos de todas as pessoas e seres a mesma chama que brilha em meu coração.
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Imagem ilustrativa de #MorningAltars


