O Verdadeiro Amor

Há fé em amar ferozmente
aquele que é seu por direito,
especialmente se você
esperou por anos e especialmente
se parte de você nunca acreditou
que poderia merecer esta
amada mão acenando
estendida para você desta forma.

Estou pensando na fé agora
e nos testamentos da solidão
e naquilo de que nos sentimos
dignos neste mundo.

Anos atrás, nas Hébridas,
eu me lembro de um velho
que caminhava todas as manhãs
sobre as pedras cinzentas
até a praia das focas,
e que pressionava o seu chapéu
contra o peito sob o tempestuoso
vento salgado e fazia sua oração
para o turbulento Jesus
oculto na água,

e penso na história
da tempestade e de todos
despertando e vendo
a figura distante
mas familiar
do outro lado da água
chamando por eles

e em como todos nós estamos
nos preparando para aquele
abrupto despertar,
e para aquele chamado,
e em como naquele momento
nós teremos que dizer sim,
exceto que não
virá de forma tão grandiosa
nem tão bíblica
mas mais sutil
e intimamente diante
daqueles que você sabe
que temos que amar

de modo que quando
finalmente sairmos do barco
em direção a eles, descobriremos
tudo o que nos sustenta
e tudo o que confirma
a nossa coragem, e que se você quisesse
se afogar você poderia,
mas você não quer
porque finalmente
depois de toda essa luta
e de todos esses anos
você simplesmente não
quer mais
você simplesmente se cansou
de se afogar
e quer viver e
quer amar e você
atravessará qualquer território
e qualquer escuridão
por mais líquida e perigosa
que seja para pegar a
única mão que você sabe que
pertence à sua.

Trad.: Nelson Santander

Nota do tradutor:

Segundo este site, o poeta e filósofo David Whyte foi convidado pelas Irmãs da Misericórdia para discursar numa conferência na cidade de Galveston, Texas. O tema da conferência era a passagem bíblica em que Jesus se dirige aos discípulos caminhando sobre as águas e os chama para sair do barco. O poema acima é o que ele escreveu em resposta. Ao ler o poema, Whyte disse: “aquele que nos chama para fora de nossos barcos pode ser uma pessoa, uma nova vida, ou mesmo alguma parte profunda de nós mesmos.

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