Uma Apreciação Mais Profunda da Natureza

Tradução de “A Deeper Appreciation of Nature”, texto de Satish Kumar publicado na revista Resurgence & Ecologist, edição 305 (Nov/Dez de 2017).

Existem três formas de compreender e descrever o relacionamento entre a Natureza e os humanos: ecologia rasa, ecologia profunda e ecologia reverencial.

Foi Arne Næss, o filósofo Norueguês (1912–2009), quem fez a distinção entre o que ele chamou de ‘ecologia rasa’ e ‘ecologia profunda’, cunhando a segunda expressão durante o processo. Na minha visão essa distinção é boa, mas não o suficiente. Uma vez eu disse para o Arne, brincando, que profundo não necessariamente significa bom. Afinal, nós podemos com frequência nos encontrar no proverbial buraco profundo! Então, nós precisamos dar um passo adiante da ecologia profunda, e esse passo é a ecologia reverencial.

A ecologia rasa considera importante a conservação da Natureza, mas apenas porque a Natureza é útil para os humanos. É uma visão de mundo antropocêntrica. Nessa visão os humanos estão no centro; eles são uma espécie especial e superior. Os humanos tomam conta do ambiente — dos animais, dos oceanos, dos rios e das floresta — para que eles possam se beneficiar da Natureza por um longo tempo ainda a vir. Ecologistas rasos desejam um futuro sustentável para a humanidade, e para eles a Natureza é um ‘recurso’ para a economia.

Para os defensores da ecologia profunda, a Natureza tem valor intrínseco. A Natureza não é apenas um recurso para a economia. A Natureza é a fonte da vida em si. As árvores são boas, não só porque elas são úteis para os humanos, porque elas nos dão oxigênio, pegam nosso carbono ou nos dão sombra, frutas, e madeira: árvores são boas em si mesmas. Árvores, oceanos e montanhas estavam aqui antes dos humanos entrarem em cena. Como nós podemos dizer que humanos são superiores à Natureza e que a Natureza é feita para os humanos? Relembre, evolução. Ecologistas profundos reconhecem não só os direitos humanos, mas os direitos da Natureza. Os rios têm direitos. As florestas têm direitos.

A ecologia reverencial diz sim para tudo isso, mas ela adiciona uma dimensão extra: ela considera que a Natureza é sagrada. A vida é a sagrada. Os humanos precisam cultivar um senso de gratidão para com a Natureza.

Todas as religiões têm tradições de reverência pela Natureza. Para os Cristãos, o santo patrono da ecologia é São Francisco. Algumas pessoas consideram ele como o pai da ecologia reverencial. Ele comungou com as galinhas e com o lobo. Meu amigo Martin Palmer, da Aliança de Religiões e Conservação (Alliance of Religions and Conservation), diz que há uma nova consciência entre muitos grupos religiosos, que consideram plantar árvores, cuidar da terra, ser compassivo no cultivo e não colocar animais em fazendas-fábricas com condições cruéis, como sendo seu dever sagrado. Reverência pela vida é um ímpeto religioso. Ser generoso e ser gentil com a Natureza é uma responsabilidade religiosa. Como nós podemos desconsiderar, desrespeitar e destruir a Natureza se nós acreditamos que a Natureza é criação de Deus e presente de Deus?

As árvores nos dão frutos. Elas nos dão madeira. Nós dizemos obrigado, árvores. De uma pequena semente de maçã vem a árvore. Então, milhares e milhares de maçãs são presenteadas a nós nos anos seguintes. Que generosidade! O amor incondicional, que é ensinado pela Bíblia e pelo Alcorão, é também ensinado a nós por uma macieira. A árvore nunca diz, ‘Você veio com um cartão Visa?’ quando nós queremos maçãs. A árvore não faz discriminações. Você é educado ou não-educado? Pegue maçãs. Santo ou pecador, preto ou branco, jovem ou velho, humano ou animal: todos podem desfrutar do banquete de maçãs. Isso é um presente incondicional de amor. Nós temos que ter uma gratidão profunda por essa generosidade. Isso é ecologia reverencial. Nós reverenciamos Gaia. Nós reverenciamos a Natureza. Nós reverenciamos árvores.

Ecologistas rasos acreditam que a Natureza é inanimada; que apenas nós humanos temos mente, inteligência e consciência. Mas, de um ponto de vista da ecologia reverencial, a Natureza também tem mente, espírito, alma e inteligência. A semente de maçã tem memória; ela sabe exatamente o que ser. Ela nunca pergunta, ‘Eu devo ser uma macieira ou uma pereira? Eu devo ser uma macieira ou um carvalho?’. Sem dilema, sem dúvida. Nós humanos nos perguntamos, ‘Eu devo ser um médico ou um engenheiro, um contador ou um sacerdote?’, mas a macieira não tem dúvida: ela conhece sua verdadeira natureza. Ela sabe quem ela é, o que ela é e o que ela quer ser.

No momento em que nós percebemos que todos nós somos relacionados, esse planeta se torna nosso lar. Os pássaros voando no céu são nossos amigos e família. O cervo e os coelhos na floresta são nossos irmãos e irmãs; mesmo tigres e elefantes, cobras e minhocas são membros da uma família da Terra. Sem a minhoca, não haveria comida em nossa mesa. A minhoca trabalha dia e noite, sem um fim de semana, sem um feriado, sem qualquer salário. ‘Longa vida às minhocas’, eu digo. Darwin desenvolveu a teoria dele da evolução ao estudar as minhocas, então nos deixe sermos gratos à elas. No momento em que nós temos esse senso de gratidão, nós temos um senso de ecologia reverencial.

Nós somos Natureza. Nós somos feitos de terra, ar, fogo, água, espaço, tempo, consciência e imaginação. Tudo no universo está em nós. Sem o sol ou a lua, nós não poderíamos existir. Nós somos um universo miniatura: microcosmo do macrocosmo. Com a ecologia reverencial, nós percebemos essa unidade expansiva de vida. Com o entendimento da ecologia reverencial, todas as nossas desconexões estreitas e mesquinhas desaparecem. Nós colocamos muitos rótulos sobre nós mesmos. Nós pensamos, eu sou Inglês, eu sou Americano, eu sou Indiano, eu sou Paquistanês, eu sou um Hindu, eu sou um Cristão, eu sou um Muçulmano, eu sou um Budista. Esses rótulos criam desconexões. Na ecologia reverencial, todos nós somos membros de uma comunidade da Terra e uma família humana.

Ashley Blanton

arte de Ashley Blanton

Eu estava no Paquistão entre Muçulmanos, e eu sou um Indiano. Meus amigos estavam dizendo para mim, ‘Você vai para o Paquistão, caminhando sem dinheiro. Paquistão é um inimigo da Índia. Como você vai sobreviver?’, eu disse para meus amigos, ‘Se eu for para lá como um Indiano, eu vou encontrar um Paquistanês. Se eu for como um Hindu, eu vou encontrar um Muçulmano. Mas se eu for como um ser humano, eu só vou encontrar seres humanos. Essa é minha identidade primária. Eu sou um ser humano e um membro da comunidade da Terra. Com essa consciência eu sou liberado do fardo da separatividade. Eu transformo meu ego em eco. Com apenas a mudança de uma letra. eu transformei minha visão de mundo. No momento que nós vamos do ego para o eco, nós tocamos a mente de Deus.”

O cientista Stephen Hawking escreveu no último parágrafo do seu livro ‘Uma Breve História do Tempo’ que um dia, se nós encontrarmos a resposta para a questão da existência dos humanos e do universo, nós vamos conhecer a mente de Deus. Com a ecologia reverencial em mente, nós podemos conhecer a mente de Deus neste mesmo momento. Nós apenas precisamos expandir nossa consciência e saber que nós somos um cosmos miniatura. Todas as forças cósmicas estão em nós, e nós estamos dentro do cosmos. Deus não está em algum lugar além do céu. Deus está em todos os lugares dentro do cosmos. Deus significa consciência cósmica. A ecologia reverencial permite que nos sintamos em casa e à vontade neste belo planeta-lar e neste lar cósmico.

Assim, nós fazemos a jornada da ecologia rasa para a ecologia profunda, e da ecologia profunda para a ecologia reverencial.

Satish Kumar é o autor de ‘Solo, Alma, Sociedade’, e Editor Emérito no The Resurgence Trust.

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