
Ações de Contenção: Ações para desacelerar os danos à Terra e aos seres que vivem nela
Talvez essa seja a dimensão mais visível da Grande Viragem, essas atividades incluem todos os trabalhos críticos com política, legislação e leis necessárias para reduzir a destruição, assim como ações diretas – bloqueios, boicotes, desobediência civil, e outras formas de recusa/contestação. Alguns exemplos são:
Documentar e disseminar os efeitos da Sociedade de Crescimento Industrial/Capitalista Tardio sobre a ecologia e a saúde.
Fazer lobby ou protestar contra acordos internacionais que ameaçam ecossistemas e minam a justiça social e económica.
Divulgar práticas corporativas ilegais e antiéticas.
Ação Direta/Desobediência Civil:
Fazer bloqueios e conduzir vigílias em lugares de destruição ecológica, instituições de exploração financeira, como florestas primárias ameaçadas de serem devastadas, ou em locais onde são jogados rejeitos nucleares, bloqueando a construção de novos oleodutos, desobediência civil contra fraturamento hidráulico (fracking) e bancos exploradores.
Trabalhos desse tipo ganham tempo, ajudam a mudar a consciência, lutam pelo poder, e empoderam números crescentes de pessoas a agir. Isso salva algumas vidas e ecossistemas, espécies, e culturas, assim como elementos do património genético, para a(s) sociedade(s) sustentável(eis) que virá(ão). Mas, somente isso é insuficiente para realizar a transformação necessária.

Estruturas “Gaianas”: Análise das causas estruturais, e a criação de alternativas estruturais
A segunda dimensão da Grande Viragem é igualmente crucial.
Para libertarmos a nós mesmos e ao planeta, de forma significativa, dos danos sendo infligidos pela Sociedade de Crescimento Industrial, devemos entender sua dinâmica múltipla, complexa e interseccional. Como chegamos até aqui? Quais são os acordos tácitos que criam uma riqueza obscena para poucas pessoas, enquanto progressivamente empobrecem o restante da humanidade? Quais causas entrelaçadas nos prendem por contrato a uma economia insaciável que usa nossa Terra como um almoxarifado e um sumidouro?
É um cenário devastador, e é preciso coragem e confiança no nosso próprio senso comum, e na nossa essência moral/espiritual mais profunda, para olhar para esse cenário com realismo. Nós desmistificamos o funcionamento da economia global para ver como esse sistema opera. Ao fazermos isso, somos menos tentados a demonizar os políticos e os CEOs das corporações, que são servos desse sistema. Em vez disso, são geradas poderosas narrativas sobre prestação de contas e justiça restaurativa. Apesar de toda a grandiosidade aparente da Sociedade de Crescimento Industrial, sua fragilidade está sendo exposta – o quão dependente ela é da obediência, e como ela está condenada a devorar a si mesma.
Além de aprenderem como o sistema atual funciona, muitas pessoas contribuem para a criação de alternativas estruturais. Em incontáveis localidades, assim como brotos verdes abrindo caminho através do pedregulho, novas organizações sociais e econômicas estão brotando. Sem esperar que nossos políticos nacionais ou estaduais nos acompanhem, nos juntamos em grupo e agimos em nossas próprias comunidades. Fluindo a partir dessa criatividade e colaboração, em benefício de toda a vida, essas ações podem ser criticadas como sendo insignificantes, mas elas seguram as sementes da resiliência e da generatividade para o futuro.
Algumas iniciativas dessa dimensão são:
Fóruns (teach-ins) e grupos de estudo sobre a Sociedade de Crescimento Industrial.
Estratégias e programas para defesa não-violenta e baseada nos cidadãos.
Desenvolver comunidades baseadas em interconexões profundas entre linhas que antes eram divididas, como raça, gênero, status econômico e habilidades – que também oferecem modelos para sistemas sociais/sociedades maiores.
Redução da dependência de combustíveis fósseis e nucleares, e conversão para fontes renováveis de energia.
Organizações de vida colaborativa, como co-habitação, ecovilas, compartilhamento de terra, casas pequenas (tiny houses), e compartilhamento de casas coletivas.
Jardins comunitários, cooperativas de consumidores, cooperativas que pertencem aos trabalhadores, comunidades que sustentam a agricultura (CSA), restauração de bacias hidrográficas, moedas locais, e mais.

Mudança de Consciência
Essas alternativas estruturais não podem enraizar-se e sobreviver sem ter valores profundamente realizados e incorporados para sustentá-las.
Elas requerem mudanças profundas na nossa perceção da realidade, e do nosso entendimento da natureza dos relacionamentos – tanto entre humanos quanto com o mundo mais-que-humano. Ao redor do planeta, essas mudanças estão vivas e estão a acontecer agora, como revolução cognitiva, prática incorporada e despertar espiritual.
Os insights e experiências que nos capacitam e nos empoderam a fazer essas mudanças estão a acelerar, e eles assumem muitas formas. Eles emergem como o reconhecimento, a expressão e o honrar do luto pelo nosso mundo, provando que as noções do velho paradigma estão erradas, incluindo o individualismo rude e a separatividade essencial do ‘eu’ e dos outros humanos, do mundo e das energias mais profundas da realidade. Eles emergem como uma resposta bem-vinda para que marcos no pensamento e na prática científica, como o reducionismo, o materialismo e a ciência ligada ao lucro, deem lugar à evidência de um universo vivo vital.
E eles emergem no ressurgimento das tradições de sabedoria. Esse aprofundamento do entendimento do sagrado, e do não-dual, lembra-nos novamente que o nosso mundo é um todo sagrado, digno de adoração e serviço inspirado.
As muitas formas e ingredientes dessa dimensão incluem:
A teoria geral dos sistemas vivos; por exemplo, usar os seus ensinamentos sobre propriedades emergentes para comunicar estratégias para realizar mudanças.
A Ecologia Profunda, o profundo movimento ecológico de longa-duração, e o movimento por uma transição justa.
A Espiritualidade da Criação e a Teologia da Libertação, o Budismo Engajado e correntes similares em outras tradições.
Ecofeminismo.
O ressurgimento das tradições Xamânicas.
Ecopsicologia.
O conceito de cultura nutritiva e esforços em direção ao desenvolvimento dela.
Esforços para preservar línguas e culturas indígenas e, desse modo, a sabedoria que elas expressam.
Terapias somáticas para nos conetarmos aos nossos corpos.
Ir além das culturas e etnicidades e outras diferenças, para abraçar as coisas em comum e celebrar a diversidade.
As realizações que fazemos na terceira dimensão da Grande Viragem salvam-nos de sucumbir ao pânico, à paralisia, ou à maldade. Elas dão força e coragem para resistir ao torpor físico e ao falso abrigo da evasão. Elas empoderam-nos de forma a escolher não nos virarmos uns contra os outros como bodes expiatórios com quem desabafamos o nosso medo e nossa fúria. Em vez disso, movemo-nos na direção de abraçar radicalmente a unidade da humanidade para além de todas as diferenças, e na direção da sacralidade fundamental de toda a vida.
O texto acima foi traduzido do site oficial do Work That Reconnects ( workthatreconnects.org/spiral/the-great-turning ) .
Uma versão ampliada do texto pode ser encontrada no capítulo 1 do livro “Nossa Vida Como Gaia” (“Coming Back to Life”), de Joanna Macy e Molly Young Brown.



