A Transformação pelo Encontro – Eco-Mitologia

Conversar sobre Eco-Mitologia com Sofia Batalha

A Eco-Mitologia fala do entrelaçamento essencial entre Ecologia e Mitologia.

Ecologia como os conjuntos interdependentes, simbióticos e dinâmicos dos múltiplos sistemas vivos que nos dão vida — das paisagens aos animais, passando pela meteorologia e os ciclos. A Mitologia como as linhas matriz — codificações oníricas, simbólicas e metafóricas — das histórias ancoradas pelo corpo, através do mais-que-humano e dos lugares.

(Sofia Batalha)

sobre a Sofia Batalha
Já o fiz noutras ocasiões e gostaria de o reforçar: o trabalho que a Sofia Batalha desenvolve é das coisas mais valiosas com que me cruzei nos últimos anos, partindo do que há de mais ancestral na cultura portuguesa, colocando-o em diálogo com outros pensadores e pensadoras internacionais e dando pistas de como criarmos alternativas ao sistema necro-capitalista que se impôs sobre nós. Para mim, é das pensadoras portuguesas fundamentais deste tempo em que vivemos, pela coragem das perguntas que faz e pela interseccionalidade com que aborda todas as questões que levanta. Mas deixo o aviso: se vão à procura do pensamento racional cartesiano – que apesar de ter o seu lugar, se tornou tão dominante que nos sufoca -, não é isso que vão encontrar. A proposta da Sofia é outra. E ela faz jus ao nome que tem.

Samuel F Pimenta
@samuelfpimenta

Oração à Vida

Remembramos a poli-poética e perspectiva ecológica de quem somos. Respiramos em profunda relação, a cada momento. Somos tanto e temos tanto a recordar e re-criar, tanto os mitos internos como os externos. Responsavelmente abrimos espaço nas nossas narrativas internas para que abracemos as histórias e os sonhos do mundo, os antigos e os emergentes. Tocamos no luto e confiamos na incerteza. Descentralizamos a nossa presença enquanto humanos e recordamos a escuta, o toque e o corpo. Voltamos aqui e agora, ao tecido dos heróis em comunidade e não de indivíduos isolados. Partilhamos as fertilizações entre mitologia, psicologia e ecologia. (Re)Encontramos quem somos nos limiares. Vens?


Sou ‘designer’ por formação académica, professora por acaso, escritora por necessidade visceral, e investigadora independente por curiosidade natural. Mamífera, autora, mãe, mulher e tecelã de perguntas. Desajeitada poetiza de prosas sem conhecimentos gramaticais. Peregrina entre paisagens interiores e exteriores, recordando práticas cósmico-ctónicas em presença radical, escuta activa, eco-mitologia, ecopsicologia, arte, êxtase e escrita.

(Re)Aprendo a viver na imanência, na pertença e em consciência, abraçando a eco-mitologia, ecopsicologia, eco-filosofia e a eco-espiritualidade, a decolonização, e múltiplas formas de arte. Falo a partir do pós-activismo mitológico e filosófico, para recriar rituais, histórias e mistério — pois, os três M’s: Mistério, Metáforas e Mitos recordam a nossa sabedoria primordial e complexa do paradoxo.

Sou certificada em Ecopsicologia pela Pacifica University, nos EUA. Aprendo com Bayo Akomolafe e sou Warm-Data Host da linha sistémica de Nora Bateson. Identifico-me como pós-activista, contribuindo para The Emergence Network. Em 2022, um dos meus ensaios, The Blind Oracle, foi seleccionado para a Participação Global Doing Things with Stories (DTwS), da ArtEZ University of the Arts, Oxfam, e Radboud University.

Autora de oito livros publicados, editora da revista ‘online’ gratuita, Vento e Água, e Podcast Remembrar os Ossos – tudo em português.

Em 2016, lancei os três volumes da Colecção Casa Simbólica, onde sistematizo toda a informação sobre a abordagem simbólica. Defini também os passos para a Especialização em Feng Shui Simbólico em Portugal. Em 2019 lancei o livro “Uma Casa Feliz”, que sintetiza a minha experiência para o grande público. Em 2020 lanço o livro “Um Lugar Feliz”, em 2021 o “Pequeno Livro da Imanência”. Em 2022 sai o livro “Contos da Serpente e da Lua”.

Outros projectos que me alimentam

estar em relação é um lugar de amor e de luto

Quando é que nos esquecemos de que tudo na terra está entrelaçado, dos rios à comida que comemos, das montanhas às casas que erguemos, do ar à água que bebemos, da floresta à horta que plantamos, do lobo ao ovo na capoeira, da abelha aos frutos na mercearia, da bactéria à chuva que rega a terra, da paisagem à forma como imaginamos, do movimento dos astros à forma como rezamos? Tudo, absolutamente tudo é interdependente neste planeta. Por isso as culturas originárias, vulgo indígenas, sacralizaram a vida, porque sabem que sem deuses não há pedras, sem pedras não há florestas, sem florestas não há chuva, sem chuva não há alimento, sem alimento não há comunidades humanas e não humanas, sem comunidades não há Terra. É uma teia. E se se rompe um fio, rompe-se a estrutura. Mas nós, que criamos, que nos revoltamos, que choramos, que sonhamos, que oramos, que fazemos conjuros, que curamos, que cultivamos, que lembramos… Nós podemos, quais aranhas, tecer novos fios para compor de novo a teia. E assim relembrar que o Santuário somos Nós. Não eu nem tu, perdidos no delírio individualista da pós-modernidade. Mas Nós-húmus, Nós-placas-tectónicas, Nós-humanos, Nós-ventos, Nós-líquenes, Nós-toupeiras, Nós-larvas, Nós-florestas, Nós-peixes, Nós-abissais, Nós-água, Nós-todos, Nós-Terra. Cada milímetro deste chão, cada poro, cada átomo. O Santuário somos Nós.

@samuelfpimenta, autor e ativista, sobre o livro O Santuário

“Parentecentricidade (kincentricity). A ideia de que somos todos parentes, estamos todos relacionados, e que se realmente internalizarmos isso, acreditarmos e agirmos de acordo, haverá mais harmonia entre os sistemas naturais e as sociedades humanas. Acho que essa é uma palavra-chave. Recuperação é certamente uma palavra-chave, recuperando a voz e a visão indígenas, o orgulho e a identidade, tudo, o conhecimento.”

-Dennis Martinez